
Professor Gustavo Ribeiro, Professora Rayza Sarmento, Professor Carlos Souza e Professora Eugênia nos debates iniciais.
No instagram do Programa PPGCP, já dava para ter um noção do que estaria por vir.
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O evento, realizado no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Federal do Pará (UFPA) em Belém – Pará, teve como tema central gênero, raça e interseccionalidade, com ênfase em políticas de inclusão, justiça social e desafios acadêmicos. Contou com a participação de docentes, discentes e a convidada internacional Christiane Taubira (ex-ministra da Justiça da França e figura emblemática na luta por direitos humanos).
A belíssima e inteligente cerimonialista Marta Jares inicia o evento com a apresentação de autoridades acadêmicas importantes. Primeiramente, é mencionada a vice-reitora da Universidade Federal do Pará (UFPA), professora doutora Loiane Verbicaro, que, neste evento, representa a reitoria da universidade. Em seguida, é chamado o professor Cristião Arigal, responsável pelo coletivo Ter-Territorial de Iona, com sede em Berlim, além de docente na Universidade de Guiana.
Por fim, nesta primeira parte, é feita a apresentação da professora doutora Aline Beckmann Menezes, diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFPA, reforçando a participação de diferentes lideranças da universidade e de outros centros de pesquisa no evento.
Foi convidado também para integrar o dispositivo o diretor da Faculdade de Ciências Sociais da UFPA, professor doutor Lucas Okada e o o vice-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFPA, professor doutor Gustavo Ribeiro.

Discente Marta Jares organizando o cerimonial.
Acompanhe o momento da composição do dispositivo.
Fala da Professora Loiana Verbicaro na Abertura do Evento do PPGCP/UFPA

Professora Loiane Verbicaro
A professora Loiane Verbicaro, em sua fala inicial, destacou o caráter estrutural e urgente das discussões sobre política, raça e desigualdade na Amazônia, posicionando o evento como um espaço fundamental para reflexões acadêmicas comprometidas com a transformação social. Ela enfatizou que o PPGCP/UFPA tem um papel singular como único programa de pós-graduação em Ciência Política na região amazônica, o que o coloca na vanguarda de pesquisas que articulam conflitos territoriais, movimentos sociais e políticas públicas.
Em sua intervenção, Gustavo Ribeiro (coordenador do PPGCP/UFPA) destacou três eixos centrais:
- Unicidade do PPGCP na Amazônia
- Reafirmou o papel estratégico do programa como o único mestrado em Ciência Política sediado na região amazônica, enfatizando sua responsabilidade em pautar debates sobre conflitos socioambientais, povos tradicionais e desigualdades regionais.
- Compromisso com Temas Emergentes
- Anunciou a realização do Encontro Nacional de Ciência Política na UFPA em 2025, com foco em:
- Justiça ambiental (mineração, agronegócio e resistências);
- Interseccionalidade (raça, gênero e classe na Amazônia);
- Internacionalização (parcerias com países como Guiana Francesa).
O coordenador do programa, professor Gustavo Ribeiro, definiu em uma palavra o que representou o evento:
“Nosso programa não estuda a Amazônia de longe. Estamos dentro dos conflitos, produzindo conhecimento com os pés na terra e os olhos na justiça.”
Palestra da Professora DRA. CHRISTIANE TAUBIRA

Em sua palestra inaugural, a ex-ministra da Justiça francesa Christiane Taubira apresentou uma análise profunda sobre as contradições entre os ideais republicanos franceses e as realidades do racismo estrutural. Com notável erudição e paixão política, Taubira desconstruiu o mito da igualdade francesa, demonstrando como o universalismo abstrato serve frequentemente para mascarar desigualdades profundas.
Taubira iniciou sua exposição com um histórico contundente: “A França que proclamou ‘liberdade, igualdade e fraternidade’ em 1789 levou 156 anos para conceder o direito de voto às mulheres”. Esta afirmação serviu como base para sua crítica ao que chamou de “esquizofrenia republicana” – a dissonância entre o discurso oficial de igualdade e as práticas excludentes do Estado francês, especialmente em relação às populações das ex-colônias.
A palestrante dedicou parte significativa de sua fala ao paradoxo constitucional francês: “O mesmo artigo 1º de nossa Constituição que proíbe a distinção por raça é o que impede políticas afirmativas baseadas em critérios raciais”. Com exemplos concretos, mostrou como essa contradição jurídica dificulta o combate ao racismo institucional, criando o que denominou de “cegueira racial de Estado”.
Sobre a realidade acadêmica, Taubira foi enfática: “Nossas universidades produzem conhecimento sobre o racismo, mas falham em reconhecer seu próprio racismo estrutural”. Ela destacou a sub-representação de pesquisadores negros nos cargos de poder acadêmico e a resistência em incorporar epistemologias não-eurocêntricas nos currículos universitários franceses.
Em seu momento mais emocionante, a ex-ministra relacionou a luta antirracista francesa com os desafios brasileiros: “Assim como na Amazônia, nossos territórios ultramarinos sofrem com o racismo ambiental disfarçado de desenvolvimento”. Esta conexão estabeleceu um diálogo transatlântico sobre resistências negras e indígenas.
Taubira encerrou com um chamado à ação: “Precisamos de menos universalismo retórico e mais justiça concreta”. Sua fala, que durou cerca de 40 minutos, combinou rigor histórico, análise política afiada e um profundo compromisso com a transformação social, deixando a plateia com poderosas reflexões sobre racismo, poder e resistência.
Professor Luis Cardoso – Professor do PPGCP apresentou suas pesquisas.
Professor Luis Cardoso
O professor Luís Cardoso trouxe uma reflexão crítica sobre as dinâmicas de poder, raça e desigualdade na Amazônia, com foco especial no Pará. Sua fala conectou questões estruturais do racismo brasileiro com as particularidades da região amazônica, destacando como as políticas públicas e os conflitos territoriais perpetuam desigualdades.
1. Racismo Estrutural e a Realidade Paraense
Cardoso iniciou destacando que o Pará é um estado com maioria negra e indígena, mas onde as estruturas de poder ainda são dominadas por uma elite branca e vinculada a interesses econômicos predatórios. Ele mencionou:
- Dados demográficos: 62% do território paraense é composto por terras indígenas e unidades de conservação, mas essas populações são as mais marginalizadas em políticas de desenvolvimento.
- Violência racial e territorial: Citou casos de conflitos agrários envolvendo quilombolas e indígenas, especialmente em áreas de expansão do agronegócio (dendê, soja, pecuária) e mineração.
“O racismo na Amazônia não é só um problema de discriminação individual, mas de um modelo econômico que exclui populações tradicionais de seus próprios territórios.”
Para quem tiver interesse em acompanhar os artigos do professor segue o link de suas principais publicações na plataforma google escolar:
https://scholar.google.com.br/citations?user=Ze9nnEQAAAAJ&hl=pt-BR
Professora Maria Dolores do PPGCP
Cobertura da Fala da Professora Maria Dolores
Em sua palestra, a Professora Maria Dolores, pesquisadora do PPGCP/UFPA, trouxe uma análise rigorosa sobre os conflitos socioambientais na Amazônia, com foco especial no Pará. Sua fala foi marcada por dados empíricos e uma crítica contundente ao modelo de desenvolvimento hegemônico na região, que ela caracterizou como “excludente e racializado”.
1. Conflitos Territoriais e a Falácia do “Desenvolvimento Sustentável”
Dolores iniciou sua exposição desmontando o discurso oficial sobre desenvolvimento na Amazônia. Com base em pesquisas de campo, ela demonstrou como grandes projetos de mineração, agronegócio e infraestrutura são implementados à custa da expulsão de comunidades tradicionais. Citou casos emblemáticos, como:
- Conflitos em áreas de produção de dendê (o Pará é o maior produtor nacional), onde quilombolas têm seus territórios invadidos por empresas com aval do Estado;
- A judicialização dos conflitos ambientais: 80% dos processos analisados por sua equipe no TJ/PA envolvem disputas entre empresas e povos indígenas, com morosidade e parcialidade a favor dos interesses econômicos.
“Não há neutralidade nas políticas de desenvolvimento. Elas reforçam hierarquias raciais e sociais históricas na Amazônia.”
2. Racismo Ambiental e a Invisibilização dos Corpos Negros e Indígenas
A professora dedicou parte central de sua fala ao conceito de racismo ambiental, destacando que:
- Populações negras e indígenas são as mais impactadas por degradação ambiental, mas têm menos acesso à justiça;
- Leis existem, mas não são aplicadas: O Código Florestal e a Política Nacional de Meio Ambiente são frequentemente violados em favor de grandes empreendimentos;
- O Estado é cúmplice: Órgãos ambientais sofrem desmonte orçamentário, e licenças são concedidas sem consulta adequada às comunidades.
Ela apresentou dados alarmantes: em Barcarena e Marabá, áreas de intensa mineração, os índices de contaminação por metais pesados são 5 vezes maiores em vilas quilombolas do que em bairros urbanos próximos.
Para quem tiver interesse em acompanhar os artigos da professora segue o link de suas principais publicações na plataforma google escolar:
https://scholar.google.com/citations?user=P3-LDFUAAAAJ&hl=pt-BR
Professora Eugênia Rosa Cabral

Na foto: Dr. Rodrigo Dolandeli; Dr. Gustavo Ribeiro, Dra. Eugenia Rosa Cabral, Dra. Christiane Taubira, Dra. Maria Dolores, Doutoranda Marta Jares.
Em sua intervenção, a Professora Eugênia apresentou uma análise contundente sobre os desafios da justiça socioambiental na Amazônia, com foco nos mecanismos institucionais que perpetuam desigualdades. Sua fala combinou pesquisa empírica e crítica política, destacando três eixos principais:
- Judicialização dos Conflitos Ambientais
- Apresentou dados de 327 processos analisados no TJ/PA, mostrando que municípios como Barcarena, Belém e Marabá concentram a maioria dos casos;
- Revelou que os conflitos mais frequentes envolvem:
- Resíduos sólidos (30% dos casos)
- Exploração de recursos naturais (25%)
- Bloqueio do Cadastro Ambiental Rural – CAR (20%)
- Incoerências na Legislação Ambiental
- Criticou a demora de 8 a 12 anos para aprovação de leis ambientais, que chegam “simbólicas” após longos acordos políticos;
- Exemplificou com o conflito sobre o tamanho da reserva legal na Amazônia (Lei de Crimes Ambientais/1997), onde interesses econômicos prevalecem sobre proteção ecológica;
Crítica Institucional:
- Denunciou que 62% do território paraense é composto por terras indígenas e unidades de conservação, mas sofre pressão de setores econômicos organizados;
- Apontou a Frente Parlamentar do Agronegócio como principal vetor de flexibilização ambiental;
Para quem tiver interesse em acompanhar os artigos da professora segue o link de suas principais publicações na plataforma google escolar:
https://scholar.google.com.br/citations?user=i0pNX8YAAAAJ&hl=pt-BR
Claro, vou reescrever o conteúdo da apresentação do professor Carlos Souza como uma reportagem para o seu blog. Aqui está:
Professor Carlos Souza revela avanços em pesquisas sobre participação política de minorias na Amazônia

Em uma recente apresentação, o professor Carlos Souza, um dos fundadores do programa de pós-graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Pará (UFPA), compartilhou insights valiosos sobre seu grupo de pesquisa, o Observatório Eleitoral do Estado do Pará.
Souza, que está no programa desde 2008, destacou a evolução de seu foco de pesquisa. Inicialmente centrado em questões eleitorais gerais, o grupo passou a se concentrar, a partir de 2016, na participação de grupos minoritários no processo eleitoral.
“Nosso objetivo é estudar a participação de mulheres, negros, indígenas, população LGBT, jovens e idosos no processo político, especialmente no nível municipal,” explicou Souza. “Isso nos permite identificar as especificidades da Amazônia em comparação com outras regiões.”
Entre os projetos mais recentes do grupo, destaca-se o “Quebra do teto de vidro: constrangimentos e desafios à representação de minorias no sistema partidário brasileiro”, financiado pelo CNPq. Além disso, Souza mencionou sua participação em uma rede de pesquisa que envolve todas as universidades da Amazônia Legal, focando em questões ambientais e de segurança pública.
O professor ressaltou a produtividade do grupo:
| 1. 32 dissertações de mestrado orientadas, das quais 12 focam na participação de minorias. |
|---|
- Pesquisas inovadoras, como o estudo sobre candidaturas “laranjas” de mulheres nas eleições municipais.
- Uma disciplina de pós-graduação sobre “Democracia, representação e minorias”, que tem gerado artigos para conferências acadêmicas.
- Orientação de mais de 20 bolsistas de iniciação científica ao longo dos anos.
“Estamos expandindo nossa produção científica sobre a participação de minorias no processo político, com um foco especial na realidade amazônica,” afirmou Souza. “Nossos trabalhos têm sido apresentados em importantes congressos nacionais e internacionais.”
O professor também mencionou novos projetos em andamento, incluindo estudos sobre violência política de gênero contra mulheres indígenas e análises de municípios que não elegeram nenhuma mulher para o cargo de vereadora.
Esta linha de pesquisa promete lançar luz sobre as dinâmicas únicas da representação política na Amazônia, contribuindo para um entendimento mais profundo dos desafios e oportunidades para a inclusão de minorias no processo democrático da região.
Para acessar os artigos do professor Carlos Souza, basta clicar no link abaixo:
https://scholar.google.com.br/citations?user=oxeQ3NYAAAAJ&hl=pt-BR
Professora Rayza Sarmento revela resultados de pesquisa sobre ativismo feminista no Pará

A Dra. Rayza Sarmento, professora e pesquisadora feminista com doutorado em Ciência Política pela UFMG, compartilhou os resultados de um estudo inovador sobre o ativismo político das mulheres e sua relação com o Estado no contexto paraense.
“Este é um macro-projeto que engloba diversos trabalhos de estudantes, focando na interação entre o ativismo político feminino e as estruturas estatais,” explicou a Dra. Sarmento. Ela destacou que esta pesquisa se alinha com uma tendência recente na Ciência Política, que busca compreender como os movimentos sociais se institucionalizam e acessam o Estado.
O projeto, intitulado “Movimentos Sociais e Gênero no Contexto Paraense: Ativismo Político e Interação Sociostatal”, recentemente concluído, abordou duas frentes principais:
- Mapeamento do ativismo feminista no Pará: A equipe realizou um extenso levantamento dos repertórios de ação do movimento feminista no estado. “Identificamos mais de 40 grupos feministas atuando apenas em Belém, e esse número dobra quando consideramos todo o estado do Pará,” relatou a professora.
- Análise da institucionalização do movimento: Os pesquisadores examinaram como as feministas interagem com o Estado, mapeando a legislação sobre gênero e raça no Pará ao longo de 20 anos.
A Dra. Sarmento enfatizou uma característica distintiva do feminismo paraense: sua natureza interseccional. “Diferentemente do feminismo do Sudeste, que é predominantemente branco, o movimento no Pará é composto majoritariamente por mulheres pretas, pardas, indígenas, quilombolas e, sobretudo, trabalhadoras,” observou.
A pesquisa também revelou dados preocupantes sobre a legislação relacionada a gênero e raça. Em duas décadas, foram identificados apenas 146 projetos de lei sobre questões de gênero ou direitos das mulheres na Assembleia Legislativa do Pará (ALEPA), e somente 19 projetos relacionados a questões raciais.
No entanto, a professora destacou como a presença de pessoas oriundas de movimentos sociais pode impactar significativamente a produção legislativa. “A entrada de uma única deputada com background ativista resultou em 17 novos projetos de lei em 2023, demonstrando o poder da representatividade,” afirmou.
O estudo também examinou o papel das “femocratas” – burocratas feministas que ocupam posições estratégicas no Estado – e como elas influenciam as políticas públicas.
A Dra. Sarmento concluiu ressaltando a importância da dimensão amazônica nas lutas feministas locais. “Aqui, todas as questões que permeiam a luta feminista estão intrinsecamente ligadas à questão amazônica e territorial,” observou, destacando a singularidade do contexto paraense em relação a outras regiões do país.
Esta pesquisa pioneira lança luz sobre as dinâmicas únicas do ativismo feminista na Amazônia e sua interação com as estruturas estatais, oferecendo valiosos insights para estudiosos e ativistas do movimento feminista no Brasil.
Para quem tiver interesse em acompanhar os artigos da professora Rayza Sarmento segue o link de suas principais publicações na plataforma google escolar:
https://scholar.google.com.br/citations?user=WLetvH4AAAAJ&hl=pt-BR
Acompanhe abaixo a palestra da professora:
Acompanhe abaixo a palestra da professora:
Professor Gustavo Ribeiro revela dados inéditos sobre opinião pública e meio ambiente na Amazônia

Em uma recente apresentação, o professor Gustavo Ribeiro compartilhou resultados surpreendentes de uma pesquisa pioneira sobre valores ambientais e atitudes em relação à Amazônia. O estudo, conduzido por seu grupo de pesquisa, é um dos primeiros no Brasil a focar na opinião pública sobre questões ambientais na região amazônica.
“Temos muitos discursos sobre a Amazônia, mas pouco espaço para a Amazônia falando sobre si mesma,” explicou Ribeiro. “Nossa pesquisa busca preencher essa lacuna, dando voz aos habitantes da região.”
O estudo, realizado no primeiro semestre de 2023, contou com uma amostra de 1.789 participantes de todo o Brasil e uma amostra ampliada de 1.588 residentes da região Norte, garantindo uma representatividade significativa da população amazônica.
Entre os resultados mais surpreendentes, Ribeiro destacou:
| 1. Percepção de problemas na Amazônia: 43% dos moradores da região Norte identificaram o desmatamento ou as queimadas como o principal problema da Amazônia. |
|---|
- Atividades econômicas: Enquanto 80% dos entrevistados consideram a mineração e a extração de madeira negativas para a região, surpreendentemente, 70% veem o agronegócio como positivo.
- Expansão agrícola: 55,3% dos amazônicos concordam com a proposta de aumentar a área permitida para agricultura na Amazônia, mesmo que isso implique em redução da área florestal.
- Garimpo em terras indígenas: 66% dos entrevistados rejeitaram a ideia de aceitar um emprego como garimpeiro em reserva indígena, mesmo em situação de desemprego.
O professor ressaltou a complexidade das atitudes em relação ao meio ambiente na região: “Há uma aparente contradição entre a preocupação com o desmatamento e o apoio ao agronegócio. Estamos tentando entender se isso vem da propaganda ou da legitimidade social do setor na Amazônia.”
Ribeiro também mencionou outros temas abordados na pesquisa, como negacionismo climático, trade-offs entre economia e meio ambiente, e racismo ambiental. “Estes dados estão gerando diversos estudos e publicações, contribuindo significativamente para nossa compreensão da relação entre opinião pública e questões ambientais na Amazônia,” concluiu.
Esta pesquisa inovadora promete lançar nova luz sobre as complexas dinâmicas sociais e ambientais na região amazônica, oferecendo insights valiosos para políticas públicas e estratégias de conservação.
Acompanhe os artigos do professor Gustavo Ribeiro clicando no link abaixo:
https://scholar.google.com/citations?user=Kqsf3OcAAAAJ&hl=pt-BR
Acompanhe abaixo a palestra do professor:
Professora Aline Beckmann de Menezes sobre Saúde Mental nas Universidades

Professor Ernani Chaves e Professora Aline Menezes

Em uma intervenção marcante durante o evento, a Professora Aline Beckmann de Menezes (vice-diretora do IFCH/UFPA e docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia) trouxe uma análise crítica sobre os desafios de saúde mental no ambiente universitário, com foco nos impactos da democratização do acesso sem políticas efetivas de permanência. Sua fala combinou dados empíricos, relatos de estudantes e propostas concretas para transformar a universidade em um espaço verdadeiramente acolhedor.
1. Crítica ao Modelo Individualista de Saúde Mental
Aline iniciou sua exposição questionando abordagens que reduzem o sofrimento psíquico a questões meramente individuais:
- “Enxugar gelo”: Comparou o aumento de vagas em clínicas-escola à ineficácia de tratar sintomas sem mudar estruturas.
- Dados alarmantes: Citou pesquisas mostrando que alunos cotistas e de baixa renda são os mais afetados por ansiedade e depressão, muitas vezes abandonando os cursos por pressões econômicas e acadêmicas.
- Exemplo concreto: Criticou a política que impede bolsistas de permanência (auxílio básico) de concorrerem a bolsas de pesquisa, forçando-os a escolher entre sobrevivência e formação.
“Não adianta oferecer terapia se não mudarmos uma cultura que adoece. A saúde mental é coletiva e exige transformação institucional.”
2. Democratização Incompleta: Acesso ≠ Pertença

Com base em estudos longitudinais, Aline destacou que a expansão do acesso ao ensino superior não garantiu inclusão real:
- Inclusão parcial: Alunos de grupos sub-representados entram na universidade, mas não participam plenamente de atividades acadêmicas (ex.: congressos, estágios) por falta de recursos.
- Sentimento de não-pertença: Relatou casos de estudantes que se veem como “forasteiros” em seus próprios cursos, especialmente em carreiras elitizadas.
- Armadilha da meritocracia: Denunciou o uso do CR (Coeficiente de Rendimento) como critério único para oportunidades, ignorando desigualdades prévias.
3. “Ambientes Nutridores”: Uma Proposta Radical
Como alternativa, a professora apresentou o conceito de “ambientes nutridores”, baseado em quatro pilares:
- Comportamento pró-social
- Promover colaboração (não competição) entre estudantes;
- Exemplo: Grupos de estudo solidários para alunos cotistas.
- Monitoramento de riscos
- Criar políticas antitóxicas (ex.: prevenção ao assédio, redução de cobranças excessivas);
- Infraestrutura digna
- Garantir alimentação, moradia e transporte adequados;
- Cobrar melhorias nas casas do estudante da UFPA.
- Flexibilidade psicológica
- Respeito à diversidade de trajetórias (ex.: mães estudantes, indígenas com ritmos culturais distintos).
Projeto em andamento:
Aline mencionou o programa “Território de Acolhimento” da UFPA, que testa essas ideias através de rodas de conversa e reformas curriculares.
4. Denúncia: A Hipocrisia da “Resiliência”
Em seu momento mais contundente, a professora criticou discursos que culpabilizam os estudantes:
- “Não é falta de resiliência, é falta de condições”: Mostrou como a carga tripla (estudo-trabalho-cuidados familiares) esgota alunos pobres;
- Comparação com Harvard: Lembrou que a universidade norte-americana foi por séculos dominada por 10 famílias, evidenciando que “mérito” sempre teve cor e classe.
Frase-chave:
“Quando um aluno desiste, não é ele quem falha. É a universidade que falhou com ele.”
Conclusão: Um Chamado à Ação Coletiva
Aline encerrou convocando a comunidade acadêmica a:
✔ Criar um fórum permanente sobre saúde mental com participação discente;
✔ Extinguir o uso do CR como filtro único para bolsas e estágios;
✔ Exigir do MEC verbas específicas para psicólogos e assistentes sociais nas universidades públicas.
Destaques da Fala:
- Conexão clara entre políticas institucionais e sofrimento psíquico;
- Propostas concretas baseadas em evidências;
- Postura corajosa ao desafiar hierarquias acadêmicas.
Para acessar os artigos da professora basta clicar no link abaixo:
https://scholar.google.com/citations?user=JsaPqN0AAAAJ&hl=en
Professora Thelma Amaral Gonçalves (PPGSA/UFPA)

Em sua intervenção no evento, a professora Thelma Amaral Gonçalves, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA/UFPA), apresentou uma análise profunda sobre gênero, raça e produção acadêmica na Amazônia, destacando o papel dos grupos de pesquisa como espaços de resistência e inovação teórica.
1. Crítica à Branquidade Acadêmica
Thelma iniciou com uma contundente denúncia:
- A universidade ainda opera sob “lentes coloniais”, onde teóricos brancos dominam as referências curriculares
- Citou o caso da antropóloga Zora Neale Hurston – pioneira negra norte-americana – sistematicamente invisibilizada nos cursos
- Dados do PPGSA: apenas 15% das teses defendidas entre 2015-2020 focaram em relações raciais
2. O Grupo “Nós Mulheres” como Resistência
Apresentou o trabalho desenvolvido pela professora Mônica Conrado:
- Espaço de acolhimento para pesquisadoras negras na UFPA
- Desenvolve as “Giras Epistemológicas” – encontros mensais para estudar autoras negras
- Já analisaram obras de Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento e Zélia Amador
3. Sexualidades Dissidentes na Academia
Como coordenadora do grupo “Confluências”, Thelma destacou:
- Pesquisas sobre corporeidades LGBTQIA+ na Amazônia
- Metodologia inovadora: combina teoria sociológica com narrativas autobiográficas
- Caso emblemático: estudo sobre homens trans na graduação em Administração
4. Desafios Institucionais
- Falta de editais específicos para pesquisas sobre racismo
- Dificuldade em publicar estudos decoloniais em periódicos “tradicionais”
- Necessidade de cotas para discentes indígenas nos programas de pós
Frase-Impacto:
“Nossos corpos negros e dissidentes ocupam a universidade, mas ainda precisam lutar para que nossos saberes sejam reconhecidos como ciência.”
Propostas Apresentadas:
- Reformulação curricular obrigatória com inclusão de autores negros
- Criação de um selo editorial para pesquisas afro-amazônicas
- Mapeamento de violências epistêmicas nos programas de pós
A fala de Thelma ecoou como um chamado à ação, demonstrando como a sociologia pode ser ferramenta de transformação quando assume seu lugar na luta antirracista e anticolonial.
Para ler os trabalhos da professora basta clicar no link abaixo:
https://gepem-ufpa.com.br/linhas-de-pesquisa/genero-corpos-e-sexualidade.html
Fala do Professor Ernani Pinheiro Chaves (PPGFIL/UFPA)

Professor Ernani Chaves com o Discente Hugo Picanço
Em uma intervenção marcada por erudição crítica e provocação intelectual, o Professor Ernani Prinheiro Chaves, docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Filosofia (PPGFIL) e pesquisador associado à Psicologia, apresentou uma análise contundente sobre os limites do discurso decolonial na academia, articulando filosofia antiga, psicanálise e estudos queer. Sua fala, repleta de referências precisas e ironia refinada, desafiou narrativas hegemônicas tanto do universalismo europeu quanto de certas vertentes do pensamento descolonial.
Com um estilo que mesclava rigor conceitual e experiência pessoal (declarando-se “ex-militante gay” e estudioso de Foucault), Ernani iniciou sua exposição com uma crítica ao que chamou de “fetiche da ancestralidade” nos estudos decoloniais. Argumentou que muitos adeptos dessa corrente caem em uma idealização acrítica de saberes tradicionais, tratando-os como “verdades puras” em oposição binária à filosofia ocidental. Para desconstruir essa visão, recorreu a um exemplo surpreendente: a figura da parteira (Ságefam) em Sócrates. Enquanto críticos acusam a tradição filosófica de misoginia, Ernani lembrou que o próprio Sócrates comparava seu método dialético ao ofício de sua mãe, uma metáfora feminina e corporal do parir ideias. “Isso não é apagar o patriarcado”, afirmou, “mas mostrar que a história do pensamento é mais complexa que nossos maniqueísmos contemporâneos”.
O segundo eixo de sua fala explorou as tensões entre teoria e militância, tomando como base sua trajetória nos movimentos LGBTQIA+ e seus estudos sobre Michel Foucault. Com dados de arquivo, mostrou como Foucault, em sua visita à USP em 1965, ironizou o departamento de filosofia como um “enclave colonial francês” – crítica que Ernani estendeu à atual dependência brasileira de modismos teóricos importados, mesmo em projetos que se pretendem decoloniais. Seu argumento era claro: a subversão epistemológica exige leitura direta e profunda dos autores, não reprodução de chavões. Nesse ponto, citou o trabalho de três psicanalistas negras brasileiras – Lélia Gonzalez, Neusa Santos Souza e Isildinha Nogueira – como exemplos de pensadoras que usaram ferramentas europeias (como a psicanálise lacaniana) para criticar o racismo, sem cair em reducionismos.
O momento mais polêmico da apresentação foi sua análise sobre Frantz Fanon e a alienação colonial. Ernani insistiu que qualquer leitura de Fanon que ignore seu diálogo com a psicanálise francesa (especialmente Lacan) é incompleta. “A alienação em Fanon não é só política”, explicou, “é a internalização de um olhar branco que fragmenta a subjetividade negra”. Para ilustrar, comparou relatos clínicos de Fanon sobre pacientes argelinos com casos atuais de estudantes indígenas na UFPA que precisam “performar branquitude” para serem aceitos academicamente.
Encerrando com um chamado à “vigilância epistemológica”, Ernani defendeu que a filosofia deve servir como “crítica das críticas”, questionando tanto o cânone ocidental quanto as ortodoxias anticoloniais. Sua proposta final foi a criação de um seminário permanente sobre “Filosofias da Diáspora” no PPGFIL, que incluiria desde a sofística grega até os panteras negras, passando por pensadores amazônicos como Zélia Amador de Deus.
Destaques da Fala:
- Crítica imanente ao movimento decolonial, evitando tanto a negação reacionária quanto a adesão acrítica;
- Recuperação de autoras negras psicanalistas como pioneiras da interseccionalidade;
- Proposta pedagógica radical: ler os clássicos (ocidentais e não-ocidentais) em suas contradições;
- Denúncia do epistemicídio mesmo nos espaços que se dizem dissidentes.
Num auditório dividido entre aplausos e desconforto, Ernani deixou uma questão no ar: “Podemos falar sobre a colonialidade sem reproduzir novos dogmas?” – desafio que ecoou como convite ao pensamento complexo e autocrítico.
Conclusão: O Evento como Espaço de Diálogo e Transformação
O evento organizado pelo PPGCP/UFPA consolidou-se como um marco no debate sobre desigualdades, raça e poder na Amazônia, reunindo vozes plurais da academia, movimentos sociais e lideranças internacionais como Christiane Taubira. Mais do que um ciclo de palestras, foi um laboratório de ideias onde se confrontaram análises rigorosas e propostas concretas – da crítica ao racismo ambiental à reinvenção das políticas de saúde mental universitária. Professores como Maria Dolores e Ernani Chaves desafiaram narrativas hegemônicas, evidenciando como o conhecimento científico pode (e deve) ser ferramenta de justiça social. Thelma Gonçalves e Aline Menezes, por sua vez, mostraram que a luta antirracista e decolonial exige mudanças institucionais – desde a reformulação de currículos até a criação de editais específicos para pesquisadores negros e indígenas. Christiane Taubira trouxe o contraponto internacional, lembrando que as contradições francesas entre universalismo e colonialismo espelham desafios globais. O evento não se limitou a diagnosticar problemas: apontou caminhos, como o observatório de conflitos socioambientais proposto por Dolores, ou o seminário sobre filosofias da diáspora sugerido por Ernani. Se houve um consenso, foi o de que a universidade precisa ser trincheira e ponte – trincheira na defesa dos oprimidos, ponte entre saberes acadêmicos e comunitários. Ao final, ficou claro que a Amazônia não é apenas objeto de estudo, mas sujeito político, capaz de produzir teorias e práticas transformadoras. Como sintetizou Gustavo Ribeiro: “Este debate não termina aqui. Ele ecoará nos nossos projetos de pesquisa, nas salas de aula e, sobretudo, nos territórios em luta”.

Este texto foi escrito pelo discente Hugo Sanches da Silva Picanço
Mestre em Ciência Política pela UFPA.