Sobre o Dia Internacional da Mulher

Para o Dia da Mulher, celebremos a força transformadora e a ousadia inerente ao feminino, especialmente na defesa da Amazônia e na busca por um futuro radicalmente novo. Na data de hoje, deixo uma mensagem em 5 axiomas:

  1. A luta das mulheres constitui um imperativo imediato para a libertação global e não é secundária à luta de classes.

A luta das mulheres transcende questões secundárias, erigindo-se como primordial na busca por libertação global. A superexploração enfrentada pelas mulheres, seja nos campos de trabalho exaustivo, nas fábricas, ou na condição de “objetos descartáveis”, não pode ser relegada a um plano inferior à luta de classes. É um imperativo imediato, intrínseco à batalha global pela emancipação. Ignorar essa realidade é negligenciar a urgência da igualdade e da justiça para metade da população mundial. A emancipação das mulheres trabalhadoras pobres em todo o mundo é a luta primordial dos nossos tempos. Essa perspectiva reconhece que a libertação feminina não é apenas uma questão de gênero, mas um elemento central na construção de uma nova ordem social e econômica. Ao abraçar essa causa, desafia-se um sistema que perpetua a opressão em suas diversas manifestações, almejando um futuro onde a dignidade e os direitos de todas as mulheres sejam plenamente garantidos.

  • A mulher, como agente de mudança, é fundamental para a evolução e transformação da realidade, impulsionando a sociedade com coragem e desafio ao status quo.

A mulher, enquanto agente de mudança, personifica a força motriz por trás de transformações sociais ao longo da história. A indignação e a luta, características frequentemente associadas ao feminino, têm sido catalisadores de inúmeras mudanças positivas. A história revela que a capacidade de evoluir e transformar a realidade é inerente ao ser humano, mas impulsionada pela coragem das mulheres que desafiam o status quo.

Lélia Gonzalez é um exemplo notável de uma mulher brasileira cuja trajetória foi fundamental para a mudança social. Nascida em uma família de baixa renda com 18 filhos, filha de um pai ferroviário e uma mãe indígena, Lélia enfrentou inúmeros desafios ao longo de sua vida. No entanto, sua determinação e compromisso com a justiça social a impulsionaram a se tornar uma importante intelectual, política e ativista do movimento negro e feminista no Brasil. O legado de Lélia Gonzalez é imenso e sua obra continua a inspirar e influenciar gerações de ativistas, intelectuais e militantes. Sua contribuição para a compreensão da sociedade brasileira e para a luta por igualdade e justiça social é inegável. Lélia Gonzalez é um exemplo de como a voz e a ação de uma mulher podem transformar a realidade e construir um futuro mais justo e igualitário para todos. Sua trajetória demonstra a importância da ancestralidade feminina, da valorização da cultura negra e da luta contra todas as formas de opressão.

A ação transformadora da mulher manifesta-se também na recuperação da terra e na defesa de um princípio de reconciliação. A luta das mulheres cientistas demonstra que o progresso não é inevitável, mas pode ser alcançado através da persistência e da resistência. A história da luta e das conquistas femininas é essencial para combater a subordinação e construir um futuro com alternativas.

  • A ancestralidade feminina na cultura brasileira. A mãe preta exerce a função materna, transmitindo valores e ensinando a língua que fazem parte do imaginário cultural.

A ancestralidade feminina ocupa um lugar central na formação da cultura brasileira, com a mãe preta desempenhando um papel crucial na transmissão de valores e ensinamentos. Essa figura materna, ao exercer sua função, internaliza valores culturais e ensina a língua que moldam o imaginário do país. Transmissão de valores e cultura: A mãe preta, consciente ou inconscientemente, transmitiu para o brasileiro branco as categorias das culturas negro-africanas, africanizando o português falado no Brasil e, consequentemente, a cultura brasileira. Essa transmissão cultural é fundamental para a compreensão da identidade brasileira. A língua portuguesa falada no Brasil, o “pretuguês”, é uma marca da africanização e da influência negra na formação histórico-cultural do país. O caráter tonal e rítmico das línguas africanas contribui para essa marca, demonstrando a importância da herança linguística na construção da identidade brasileira. Nomeação e entrada na cultura: A mãe preta, ao nomear o pai, possibilita a entrada na ordem da cultura, conforme a teoria lacaniana. Essa nomeação é um ato simbólico que insere o indivíduo no mundo da linguagem e da cultura. Respeito e reconhecimento: As “mães” e “tias” são figuras respeitadas dentro da comunidade negra, o que reflete o reconhecimento da importância da ancestralidade feminina na cultura brasileira.

  • A expressão da voz e a transformação do silêncio em linguagem e ação são cruciais para a autoafirmação coletiva, especialmente das mulheres negras, constituindo atos de autorrevelação essenciais, mesmo diante de riscos.

A expressão da voz individual assume um papel crucial na autoafirmação, especialmente no contexto coletivo das mulheres negras. A transformação do silêncio em linguagem e ação representa um ato de autorrevelação, embora possa parecer perigoso. A importância da organização das mulheres negras é fundamental no processo de transformação social. É crucial que as mulheres negras marquem suas experiências, abordando questões relacionadas à raça, classe e cultura. A recusa em participar de qualquer significado publicamente constituído não é uma alternativa para a linguagem patriarcal. A linguagem, assim como a cultura, pode significar repressão, mas não extinção da intersubjetividade maternal. A capacidade de colocar-se como sujeito é possível por meio da oposição entre um “eu” e um “você”.

  • Feminismo além do eurocentrismo. É preciso reconhecer as contradições e ambiguidades do movimento feminista, que, por vezes, reproduz o “imperialismo cultural”. É necessário valorizar as perspectivas e vivências das mulheres de diferentes origens, como as mulheres negras e faveladas.

O feminismo, para além do eurocentrismo, demanda o reconhecimento das contradições e ambiguidades intrínsecas ao movimento, que, em certas ocasiões, pode replicar o “imperialismo cultural”. É imperativo valorizar as perspectivas e vivências de mulheres de diversas origens, como as negras e faveladas. Críticas ao feminismo ocidental: O feminismo ocidental-branco tem sido denunciado por seu imperialismo cultural. O movimento de mulheres brasileiro, originário do movimento de mulheres ocidental, por vezes reproduz esse “imperialismo cultural”. Mulheres negras e indígenas como testemunhas da exclusão: Dentro do movimento de mulheres, as negras e indígenas são o testemunho vivo dessa exclusão, evidenciando a necessidade de inclusão e representatividade. Necessidade de considerar a diversidade: Ao celebrar o que as mulheres têm em comum e enfatizar as formas pelas quais elas são vítimas universais da opressão masculina, muitas vezes se deixa de abordar a real diversidade das vidas e das histórias de mulheres que se distinguem quanto a raça, classe e nacionalidade. Prioridades diferentes: O feminismo das mulheres de cor, por vezes chamado de “mulherista”, surge em oposição ao das feministas brancas, mostrando as diferentes prioridades de umas e outras. Responsabilidade das feministas brancas: As feministas brancas, em particular, deveriam assumir a responsabilidade de que são tanto opressoras como oprimidas, já que detêm poder enquanto pessoas brancas ou gozam de privilégios de classes ou nacionalidade. Feminismo negro e mulherismo: O feminismo negro, ao colocar no sexo a sua tônica, isolou-se do movimento de mulheres negras nos Estados Unidos, levando à reflexão crítica sobre a noção de feminismo e à contraposição do “mulherismo”. A mulher como rainha. No carnaval, a mulher negra se transforma em rainha, mas essa imagem pode ser apenas um mito da democracia racial. É preciso ir além da exaltação superficial e reconhecer as desigualdades e injustiças enfrentadas pelas mulheres negras. A necessidade de subverter a autoridade e o já-dito. É preciso questionar a insistência do significado e a burrice, subvertendo a autoridade da ciência monológica e da filiação. Um chamado à ação. Que cada mulher se aproprie de seu poder e gere um pequeno escândalo em prol da justiça.

Portanto, neste Dia Internacional da Mulher, celebremos a profunda e indispensável contribuição das mulheres como agentes de mudança e libertação global. A luta pela igualdade de gênero é primordial e entrelaçada à luta de classes, exigindo nossa atenção imediata. Honremos a ancestralidade feminina que enriquece a cultura, como a forte presença da mãe preta na cultura brasileira, perpetuando valores que moldam nosso imaginário cultural. A voz das mulheres, especialmente das mulheres negras, ressoa como um coro de transformação, convertendo o silêncio em linguagem e ação, um testemunho de coragem e resiliência. Que todas as mulheres continuem a desafiar o status quo, forjando caminhos de autorrevelação e integração num mundo onde cada voz é ouvida e valorizada. Hoje, reafirmamos nossa solidariedade e compromisso com a justiça e a igualdade para todas.

Professor Hugo Picanço

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