Participei, juntamente com a Dra. Milene Cunha, representante da OAB Pará e feminista, do Evento Ciência e Vozes da Amazônia na COP 30, realizado na UFPA. Dentre os principais pontos que foram discutidos, o evento contou com a participação de diversas pessoas, representando diferentes instituições e movimentos sociais. Abaixo está uma lista com os nomes, instituições e as mensagens principais de cada participante:

- Representante da Cúpula dos Povos (Anif Oir): A cúpula dos povos é um movimento de mais de 400 organizações que tem um olhar crítico sobre as conferências das partes (COPs) e busca trazer as vozes de povos e comunidades historicamente impactadas. A representante enfatizou a importância dos saberes ancestrais e a necessidade de que a ciência reconheça e aprenda com esses saberes. A cúpula se levanta contra mentiras e destruição, trazendo as palavras da vida e das forças da natureza.
- Auricélia Arapí, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB): Repudiou o tempo limitado para as falas no evento e expressou a preocupação de que a COP use o nome dos povos da floresta para exploração. Ela também mencionou a luta pela educação escolar indígena e a resistência contra as ações do governador do Pará, que estariam atacando a educação no estado.
- Aírton Faleiro, deputado federal pelo Estado do Pará: Cumprimentou os povos da Amazônia e as organizações sociais e reafirmou seu posicionamento contra a lei que ataca a educação. Ele destacou a conquista da realização da COP na Amazônia e a necessidade de debater os grandes temas da crise climática, defendendo que a Amazônia deve decidir o que é melhor para ela.
- Roberto Ferraz Barreto, diretor executivo da Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa (FADESP): Reivindicou o lugar dos amazônidas e enfatizou a importância de se mostrar o potencial da região. As fundações de amparo à pesquisa têm muito orgulho de fazer parte deste momento histórico.
- José Daniel Diniz Melo, Presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES): Parabenizou a UFPA pela realização do evento e destacou a importância da COP para o Brasil reafirmar seu compromisso com as mudanças climáticas e a sustentabilidade. Enfatizou o papel das universidades na produção de conhecimento e a importância do seu envolvimento na COP.
- André Godinho, secretário municipal para a COP3: Enfatizou a missão do município de Belém de criar um ambiente convidativo para a COP e de partilhar experiências com o povo da cidade. Mencionou as problemáticas da cidade que precisam ser discutidas e mitigadas, ressaltando que o município precisa de ajuda para enfrentar essas problemáticas.
- Marcel do Nascimento Botelho, diretor presidente da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisa (FAPESPA): Afirmou que a COP em Belém precisa ser um marco referencial e que a participação popular deve ser superior às edições anteriores. Destacou a importância de se publicizar a ciência para a tomada de decisões durante a COP.
- Paulo Rocha, superintendente da SUDAM: Colocou a SUDAM à disposição da universidade para atividades científicas e relacionadas à COP3.
- Sônia da Costa, diretora de tecnologia social e economia solidária do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCTI): Ressaltou a importância da articulação entre ciência, tecnologia e saberes tradicionais, citando o resgate de línguas indígenas e reforçou o compromisso do ministério com a iniciativa.
- Márcio Rras da Cruz, coordenador geral da ciência do clima (MCTI): Alertou sobre a urgência da mudança climática, mencionando dados que indicam o ultrapassamento do limite de 1,5 grau, e a necessidade de ações para o presente. Ele também destacou a importância das tomadas de decisão em políticas públicas.
Márcio Rras da Cruz, coordenador geral da ciência do clima do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCTI), apresentou um panorama alarmante sobre a urgência da crise climática, enfatizando que ela já não é uma preocupação futura, mas sim uma realidade do presente. Ele baseou suas afirmações em dados científicos concretos, ressaltando que a situação demanda ações imediatas e eficazes.
Um dos pontos cruciais de sua fala foi a menção aos dados do Copérnico, um grupo de pesquisa da União Europeia, que indicam que em junho de 2023 já havia sido ultrapassado o limite de 1,5°C estabelecido como meta no Acordo de Paris. Além disso, ele informou que 2024 foi o ano mais quente da série histórica, ultrapassando também a média anual de 1,5°C. Esses dados evidenciam que o planeta já está vivenciando os efeitos do aquecimento global em níveis críticos.
Márcio Rras também destacou que a situação é ainda mais delicada no Brasil. Estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) revelam que em algumas regiões do país, a temperatura já está 3°C acima da média comparada com a era pré-industrial. Esse aumento expressivo tem causado diversos problemas como:
- Diminuição das chuvas no semiárido, com uma redução de 40% na precipitação no Nordeste.
- Aumento das chuvas no sul, com um aumento de 30% na precipitação.
- Eventos extremos com maior frequência e intensidade, que antes ocorriam a cada 10 anos, agora se manifestam duas ou três vezes no mesmo período.
Diante desse cenário, o coordenador ressaltou a necessidade da ciência como um pilar fundamental para a tomada de decisões. A ciência fornece subsídios e informações cruciais para o desenvolvimento de políticas públicas eficientes e para a busca de soluções para a crise climática. No entanto, Márcio Rras também enfatizou que a ciência, por si só, não é suficiente. Ele argumentou que o conhecimento tradicional e outros saberes são igualmente importantes e devem ser integrados nesse processo de tomada de decisão.
Em resumo, a mensagem de Márcio Rras da Cruz foi um alerta contundente sobre a urgência e a gravidade da crise climática, reforçando a necessidade de ações imediatas e de políticas públicas embasadas em dados científicos e no diálogo com outros saberes. Sua fala destacou a importância da colaboração entre diferentes setores da sociedade e do reconhecimento de que a crise climática afeta a todos, especialmente as populações mais vulneráveis.
- Alexandre Brasil Carvalho Fonseca, secretário de educação superior do Ministério da Educação (MEC): Afirmou que não há futuro sustentável sem o protagonismo das vozes amazônicas e o conhecimento produzido na região. Ele ressaltou o papel das universidades no processo de debate sobre o clima e a realidade local, com respeito aos povos tradicionais e conhecimento locais. O MEC se compromete a fortalecer a ciência amazônica feita na Amazônia.
- Marília Cotinguiba, reitora da Universidade Federal de Rondônia e coordenadora da região norte da ANDIFES: Mencionou a inclusão de populações minorizadas nas universidades da região e destacou a importância de ouvir as vozes da Amazônia, tanto da academia quanto das tradições locais.
- Loiane Prado Verbicaro, vice-reitora da Universidade Federal do Pará: Agradeceu ao grupo de trabalho da UFPA pela organização do evento, reforçou a importância da diversidade de vozes e a necessidade de um projeto de sociedade que contemple a Amazônia.
- Gilmar Pereira da Silva, reitor da Universidade Federal do Pará: Enfatizou a importância da pluralidade do evento e o diálogo entre ciência e movimentos sociais, e reafirmou a importância de todas as vozes serem ouvidas na COP. Destacou o compromisso da universidade com a sociedade e a necessidade de apresentar a parte da academia na discussão.
Gilmar Pereira da Silva, reitor da Universidade Federal do Pará (UFPA), proferiu um discurso que ressaltou a centralidade da pluralidade e do diálogo como pilares para o enfrentamento da crise climática e para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa. Ele enfatizou o compromisso da universidade com a sociedade e a importância de que a academia apresente sua contribuição para a discussão, ao mesmo tempo que valoriza e integra os saberes dos movimentos sociais, povos indígenas, quilombolas e ribeirinhos.
O reitor iniciou sua fala saudando os diversos representantes presentes, incluindo o secretário de educação superior, Alexandre Brasil, o presidente da ANDIFES, Daniel Diniz, e o deputado Aírton Faleiro, entre outros. Ele expressou gratidão pela presença de todos e reconheceu a importância do apoio de cada um para a realização do evento e para o diálogo sobre as questões urgentes que se colocam para a Amazônia e o Brasil. Um dos pontos centrais de seu discurso foi a ênfase na necessidade de combinar ciência com os movimentos sociais. Gilmar destacou que a universidade deve se colocar à disposição da sociedade paraense, amazônida e brasileira para pensar a COP de forma conjunta, envolvendo quilombolas, indígenas, ribeirinhos e todos os movimentos sociais do Brasil e do mundo que desejem discutir uma perspectiva diferente em relação ao clima e às florestas. Ele ressaltou que a universidade quer ser um espaço de acolhimento para esses povos.
Gilmar também mencionou a importância de se ter em mente que a COP, embora tenha um evento oficial, envolve uma diversidade de atores e vozes. Ele reconheceu que os eventos “verdes e azuis” (referindo-se à agenda oficial da COP) podem não agregar a todos, mas enfatizou a necessidade de que todas as vozes sejam trabalhadas e ouvidas. A universidade, segundo ele, tem uma tradição de dialogar com a sociedade e quer dar continuidade a esse processo.
O reitor manifestou sua satisfação em iniciar o evento com a presença de universidades brasileiras, representadas pelo presidente da ANDIFES. Ele expressou o desejo de realizar uma reunião da ANDIFES em setembro, no mesmo local, como uma oportunidade de diálogo com toda a comunidade e com os reitores do Brasil. Gilmar lembrou que a COP é um evento das Nações Unidas e, portanto, um dever de todas as instituições de ciência e pesquisa apresentar a sua contribuição.
Ele também reconheceu as críticas de que a universidade não foi convidada para a COP, mas argumentou que, mesmo não sendo convidados, eles podem convidar as universidades, os governos, o Estado brasileiro e o Estado do Pará para estarem presentes nesse espaço. Para o reitor, a Amazônia é um mote, mas o diálogo é sobre o Brasil, incluindo o Cerrado, a Caatinga e outros biomas. Ele defendeu a necessidade de congregar as lutas dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, do movimento sindical e popular, reconhecendo que essa é uma tarefa desafiadora.
Gilmar enfatizou que a universidade optou pelo caminho mais difícil, que é fazer com e para todos, o que exige ouvir as vozes, as críticas e construir sínteses possíveis. O reitor ressaltou que esse evento é um esforço de organização, mas também de luta, e por isso congrega a todos. Ele finalizou sua fala dando as boas-vindas a todos a Belém, convidando-os para esse primeiro encontro de “Ciências e Vozes da Amazônia na COP3”, que seria apenas o primeiro de muitos.
Em suma, a fala do reitor Gilmar Pereira da Silva foi um convite à participação ativa e plural na discussão sobre a crise climática, destacando o papel da universidade como um espaço de diálogo, de produção de conhecimento e de articulação com a sociedade, e ressaltando a importância de valorizar os saberes tradicionais e as vozes dos movimentos sociais. Ele reforçou o compromisso da UFPA com a construção de um futuro mais justo e sustentável para a Amazônia e o Brasil.
- Isabela Jatene e Flávio Barros, moderadores do painel: Apresentaram o painel como um espaço para ecoar as vozes da Amazônia, reforçando a importância dos sujeitos da região como guardiões da floresta.
- Jaqueline Damaceno Alves, do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB): Denunciou as falsas soluções para a crise climática e a exploração das populações pela hidroeletricidade e empresas. Ressaltou a importância da mobilização e da cúpula dos povos.
- Jane Cabral, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST): Afirmou não acreditar nas COPs e defendeu a luta pela reforma agrária popular como solução para os problemas ambientais. Criticou as empresas do agronegócio e a liberação de agrotóxicos.
- Glauber Sávio, vice-diretor da Central Única dos Trabalhadores (CUT): Salientou a importância de se considerar os saberes tradicionais e a necessidade de se opor à exploração capitalista da Amazônia, que gera impactos negativos para a população local. Ele criticou a lei 10.820 e o governo do estado por atacar a educação dos povos indígenas e comunidades tradicionais. Ele enfatizou que a Amazônia tem voz, tem povo, tem direitos e que não aceita a destruição.
- Tatiana Oliveira, militante da Marcha Mundial das Mulheres: Defendeu que o debate sobre clima deve incluir pobreza, desigualdade e democratização da comunicação. Ela criticou a política de compensação de carbono e a influência de transnacionais na Amazônia.
- Jean Ferreira, da Cóp das Baixadas: Defendeu os direitos dos territórios periféricos, criticando a prioridade dada aos empresários nas COPs e destacando a necessidade de inclusão das periferias nas discussões.
- Vanusa Cardoso, da Associação de Discentes Quilombolas da UFPA (ADQ): Ressaltou a importância da oralidade para os povos tradicionais e os desafios na escuta por parte dos governantes. Ela criticou a privatização de territórios e a falta de diálogo com os povos.
- Luiz Arnaldo Campos, do Fórum Social Pan-Amazônico (FOSPA): Apontou para as decisões dos governos sobre o meio ambiente e a necessidade de os povos se salvarem, enfatizando a importância da aliança entre movimentos populares e universidades.
- Maria Nan, da União Nacional dos Estudantes (UNE): Apresentou a UNE como protagonista na luta ambiental e enfatizou a importância da mobilização unificada dos povos e da luta pela revogação da lei 10820.
Essas foram as principais vozes e mensagens apresentadas no evento, refletindo a diversidade de perspectivas e a complexidade dos desafios enfrentados na região amazônica.
Hugo Sanches da Silva Picanço é cientista político pela UFPA.