
A Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), em Belém do Pará, transformou-se em epicentro crítico durante o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, ao hospedar um evento que transcendeu a mera celebração simbólica para confrontar estruturas sistêmicas de exclusão. Em 2 de abril de 2025, acadêmicos, ativistas, professores, advogados e profissionais da saúde articularam análises interdisciplinares sobre capacitismo e direitos humanos na Amazônia brasileira – região marcada por desafios geossociais únicos, como a interseção entre urbanização precária e invisibilidade neurodivergente em comunidades ribeirinhas. As palestras desconstruíram nomenclaturas médicas obsoletas (transtorno versus condição), enquanto vinculavam políticas públicas à filosofia política radical – incluindo-se o emblemático debate sobre planos de saúde privados que inspirou a analogia fisheriana original, tema deste pequeno artigo que estou a escrever.
A escolha da UFRA como sede não foi incidental: sua trajetória como instituição científica na fronteira entre bioma amazônico e centros urbanos ofereceu contexto privilegiado para examinar como modelos assistenciais coloniais perpetuam violências epistêmicas contra corpos atípicos. Um painel jurídico-sociológico expôs casos concretos de estudantes autistas impedidos de acessar adaptações razoáveis sob argumentos contábeis pelas operadoras locais – realidade que ecoa o diagnóstico de Fisher sobre “burocratização da crueldade” no capitalismo tardio. Quando eu estava na palestra, correlacionei os acontecimento com uma obra que estou lendo poderosa, realismo capitalista de Mark Fisher.
Publicado em 2009, o livro Realismo Capitalista: Não Há Alternativa? do filósofo britânico Mark Fisher tornou-se referência crítica para analisar a naturalização do capitalismo neoliberal como único sistema viável no imaginário contemporâneo. Fisher argumenta que o “realismo capitalista” não é apenas uma ideologia, mas um fenômeno psíquico-cultural que dissolve a capacidade de imaginar alternativas ao status quo, transformando promessas neoliberais – como mercantilização total e austeridade fiscal – em dogmas aparentemente imutáveis.
Essa obra se articula de forma fulcral com o dilema que enfrentamos aqui na Amazônia, no cumprimento dos tratamentos pelos planos de saúde privados, que de forma cínica não cumprem o acordado contratualmente para com os neurodivergentes.
Articulando marxismo e psicanálise lacaniana, o autor desmonta mecanismos de captura ideológica: desde a espetacularização de protestos sociais (como campanhas humanitárias que reforçam lógicas corporativas) até a medicalização do mal-estar gerado pelo próprio sistema (ansiedade e depressão como sintomas da precarização existencial). Sua análise revela paradoxos como a incorporação capitalista de discursos anticapitalistas – movimentos sociais convertidos em produtos culturais inócuos -, demonstrando como até mesmo a resistência é recodificada como entretenimento ou gestão empresarial de diversidade. O conceito ganhou urgência após crises sistêmicas (2008, pandemia de 2020) que expuseram falhas estruturais do modelo vigente sem abalar sua hegemonia narrativa. Ao vincular crítica cultural (cinema pós-apocalíptico, literatura distópica) com economia política, Fisher oferece ferramentas para identificar manifestações desse realismo nas práticas cotidianas – desde planos de saúde excludentes até o fetichismo tecnocrático por soluções individuais para problemas coletivos.
Essa obra me fez dialogar com o evento.
1. A Naturalização do Realismo Capitalista na Governança Corporativa
A crítica fisheriana ao realismo capitalista expõe como a suposta inevitabilidade do capitalismo neoliberal se reconstritui em microesferas institucionais – como no caso paradigmático dos planos de saúde privados. Quando operadoras médicas desenvolvem protocolos complexos de exclusão de beneficiários neuroatípicos (exigência de laudos ultratecnicistas, limitação de sessões terapêuticas etc.), estão materializando o que Mark Fisher identificou como administração burocrática do sofrimento. Essa prática não configura mero oportunismo empresarial, mas expressa a internalização profunda do axioma capitalista que subordina direitos fundamentais à lógica contábil – exatamente o mecanismo que Fisher descreve em Capitalist Realism: Is There No Alternative?. O cinismo corporativo manifesta-se na dualidade discursiva: campanhas publicitárias celebrando a neurodiversidade coexistem com cláusulas contratuais que medicalizam a existência atípica. Essa esquizofrenia institucional não é acidental – constitui forma sofisticada de imunização sistêmica contra demandas por efetividade concreta, convertendo questões estruturais em problemas individuais de adequação aos protocolos.
2. A Armadilha Dialética do Protesto Performático
O debate sobre movimentos como o Live Aid ou Occupy Wall Street revela o paradoxo central da resistência sob realismo capitalista: quanto maior a adesão simbólica a causas progressistas, menor seu impacto transformador real – dinâmica que Fisher analisa através da lente lacaniana da lavagem libidinal. Quando beneficiários excluídos organizam marchas reivindicando cumprimento contratual perante operadoras de saúde (como no exemplo da Unimed), repetem involuntariamente a lógica que pretendem contestar. Ao limitar suas demandas ao marco jurídico-capitalista vigente (contratos, regulamentações setoriais), reforçam a premissa fatalista de que nenhum sistema alternativo de saúde é viável – exatamente o “falso realismo” denunciado por Fisher. Essa contradição dialética explica por que até vitórias pontuais nessas lutas (como cobertura ampliada para determinada terapia) apenas modificam superficialmente os mecanismos excludentes sem questionar sua racionalidade estrutural.
3. Psicanálise do Desejo Político na Era Neoliberal
A tríade lacaniana (Real-Simbólico-Imaginário) oferece ferramenta crucial para desnaturalizar os supostos limites intransponíveis impostos pelo realismo capitalista ao debate sobre saúde pública. A construção simbólica dominante reduz “saúde mental” à disponibilidade de serviços médicos privatizados – horizonte imaginário que exclui alternativas radicalmente coletivizadas. Quando pacientes autistas aceitam disputar cláusulas contratuais individuais em vez de reivindicar sistemas universais não mercantilizados estão capturados na fantasia realista descrita por Žižek e Fisher: lutam dentro dos parâmetros existentes por migalhas inclusivas sem ousar desejar outro modelo civilizatório. A resistência efetiva exigiria romper esse circuito libidinal através do que Lacan chamaria de “desejo para-além-da-reivindicação” – postura política capaz de ressignificar radicalmente as próprias categorias de necessidade médica e cuidado comunitário.
4.Saturação Histórica e Paralisia Reformista no Ativismo em Saúde
Lembrei também do conceito nietzschiano de saturação histórica que explicita por que iniciativas aparentemente progressistas na área da saúde mental frequentemente reforçam o status quo ante. Na medida em que pacientes e militantes aceitam disputar detalhes regulatórios técnicos (número mínimo de sessões cobertas, critérios diagnósticos específicos), acabam se imersando em complexidades administrativas tão densas quanto inócuas. Fisher destacaria aqui o caráter autorreferencial dessas lutas: um excesso informativo sobre planos operacionais particulares obscurece a ausência radical de debate sobre sistemas alternativos. Os dados mostram que 72% das ações judiciais contra negativas de cobertura obtêm sucesso limitado (ampliações casuísticas),sem impacto na arquitetura excludente dos planos. Isso reproduz dinâmica neoliberal típica: a hiperdocumentação das injustiças particulares paralisa a imaginação política coletiva necessário para transcendê-las sistemicamente. Conforme Nietzsche alertava, a história torna-se assim instrumento naturalizador do presente, talhando futuros apenas como variações infinitamente degradadas do agora existente.
5. Protesto Performático.
O conceito de protesto performático em Fisher denuncia práticas ativistas que reproduzem a lógica capitalista que pretendem combater, convertendo a resistência em espetáculo descorporeizado. Essas manifestações – como marchas temáticas com coreografias midiáticas ou campanhas de hashtags sem demandas concretas – operam sob três mecanismos: 1) Esterilização da crítica (transformando desigualdades sistêmicas em problemas técnicos ajustáveis), 2) Mercantilização da indignação (ativismo como produto cultural transacionável em likes e patrocínios corporativos), e 3) Temporalidade circular (eventos pontuais que não alteram estruturas de poder entre edições). O exemplo do Live Aid analisado por Fisher revela o paradoxo terminal: causas universalmente aceitas (combate à fome) geram adesão massiva precisamente por não ameaçarem hierarquias existentes – o “altruísmo empresarial” vira extensão do marketing neoliberal. Nas políticas de saúde mental discutidas na palestra da UFRA, essa dinâmica manifesta-se quando operadoras apoiam campanhas de “conscientização do autismo” enquanto mantêm barreiras administrativas à cobertura efetiva de terapias – transformando direitos fundamentais em gestos performáticos de responsabilidade social corporativa. Vi neste dia políticos estampando o caráter performático em redes sociais, empresas apoiando a causa, e aplausos efusivos ao evento na UFRA, quando na verdade deveríamos juntos, após o evento, fazer um movimento de paralisação, marchando pelas ruas de Belém até a porta da UNIMED para exigir o cumprimento do tratamento terapêutico das crianças autista, estendendo essa situação ao ambiente público, principalmente para aquelas crianças que se quer são incorporadas dentro de uma lógica existencial do cuidado. Parafraseando o professor Jean-François Deluchey esse modo de atuar é uma das grandes armas do chamado necroliberalismo.
Hugo Sanches da Silva Picanço é mestre pela UFPA. Pai atípico e ativista ambiental.
Referência Bibliográfica
FISHER, M. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? Tradução: TONALDO SOUSA. 1. ed. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.
LACAN, J. Os Seminários. Tradução: VERA RIBEIRO. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1998 (Coleção Campo Freudiano no Brasil).
NIETZSCHE, F. Considerações Extemporâneas: Sobre a Utilidade e a Desvantagem da História Para a Vida. Tradução: PAULO CESAR DE SOUZA. 1.ed. São Paulo: Hedra, 2008 (Coleção Obras Incompletas).
UFRA (Universidade Federal Rural da Amazônia). Mesa-redonda sobre Direitos dos Neurodivergentes no Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Belém: UFRA Campus Belém, 02 abr. 2025. Relato de experiência do participante [mensagem pessoal].
ŽIŽEK, S.O Amargo Fim do Paraíso: Ensaios sobre a Crise Global em Atos. Tradução: CARLOS EDUARDO FIGARI SANTOS DE OLIVEIRA. 1.ed. São Paulo: Boitempo**, 2022