
Tive o prazer de conhecer uma discente da UFPA, a Senhora Maria Anice Azevedo, professora aposentada de língua portuguesa da SEDUC que está concluindo o seu mestrado em Letras.
O que mais me impressionou é que pelo rápido diálogo que tive com ela nas festividades de final de ano na praia do Pindobal em Santarém foi o nível de experiência e expertise literária, onde pude constatar a grandiosidade do que ela está pesquisando.
Maria Anice pesquisa a obra de Dalcídio Jurandir, propondo uma releitura da Dona Amélia, personagem da obra Chove nos Campos de Cachoeira, dando um enfoque pelo racismo, sexismo e patriarcado.
Com qualificação muito próxima de ocorrer no programa de Letras da UFPA, ela me deu alguns spoilers da sua dissertação.
Em suas investigações, da qual naquele bom “bate papo” na praia do Pindobal da qual pude anotar alguns pontos, Dalcídio faleceu pobre e acometido de Parkinson. A própria vida dele já é uma pesquisa em si intensa. Ela dedicou o seu primeiro capítulo para explicar vários pontos da vida do grande autor marajoara. Sou extremamente grato por ela ter me apresentado o autor. Precisamos conhecer nossa literatura.
Só para vocês terem ideia do sucesso do autor, de leitura obrigatória, principalmente por ser marajoara, o diretor da Academia Brasileira de Letras a época Jorge Amado era fã das obras e dos escritos de Dalcídio.
Em suas investigações, Anice identificou que na época da ditadura militar, a obra de Dalcídio foi escolhida para ser premiada só que o autor não aceitou receber a premiação dos militares, justamente por sua personalidade forte e não concorda com o acintoso período a época. Para receber o prêmio, tiveram que inventar um mal súbito do autor para justificar sua ausência na premiação. Para Dalcídio, determinados valores eram inegociáveis, e esse era um deles.
A obra foi escrita em sua primeira versão em 1929, conta a história de Alfredo, ribeirinho de Cachoeira do Arari no Pará, em busca de estudo e uma vida melhor na cidade grande. Já estou lendo a obra e irei fazer uma live / podcast com Maria Anice. Aguardem.
A pesquisa de Maria Anice está bem avançada, e tive a oportunidade de conhecer alguns autores dos quais ela está se valendo para fazer suas análises e diálogos, dentre as quais destacou:
1 – Frantz Fanon, na obra, Os Condenados da Terra, uma obra que eu já conhecia por uma palestra que assisti on line na USP e acessei um dos maiores pesquisadores que estuda este autor, Professor Deivison Mendes Faustino.
Deivison Faustino faz uma pequena biografia do referido autor. Vale a pena conferir no link abaixo:
O legal desta obra é que traz chaves interpretativas sólidas para repensar essa dominação Europeia, propondo aquilo que ele chama de “descolonização do ser”. Fanon identifica a lógica de dominação do ser, branca, brutal e racista. O livro abre um leque de possibilidades para pensar o ser a partir de seu pedaço, permitindo aqueles “Condenados da Terra” que possam encontrar novas possibilidade de se ver no mundo, pertencer, protagonistas de sua própria história.
A partir de Fanon, é possível também pensar o encarceramento de pessoas pretas no Brasil.
2 – Luiza Barros, autora defensora das mulheres pretas, já falecida, tive que ir ao google para conhecê-la, óbvio após a indicação pela professora Maria Anice. Lendo um artigo no blog Boitempo, uma das minhas editoras preferidas, pude de cara constatar a dimensão desta mulher. Leiam o que ela falou: “somos herdeiros de uma luta histórica iniciada por muitos antes de nós”.
Realmente, faz todo o sentido essa fala. Me fez lembrar rapidamente um post que li no grupo sindical do qual participo onde ali, naquele grupo que conseguimos captar tantas informações, li a seguinte mensagem: “que temos a ver com essa guerra na Palestina, vamos focar aqui na nossa realidade…”. Bom, uma simples reflexão já demonstra o nível de cegueira que esse mundo neoliberal produz, para que as pessoas estejam ocupadas e pensando apenas naquilo que para esta estrutura neoliberal importa: o ter!
Com sua morte em 2016, foi uma grande perda para o movimento negro.
3 – Maria Lugones. Autora nigeriana, particularmente eu não a conhecia, traz várias chaves interpretativas para os estudos de gênero. Em sua obra a invenção das mulheres, construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero. Ela pesquisou em sua tese de doutorado como o determinismo biológico está no cerne das categorias sociais ocidentais. A autora afirma que o gênero foi construído e que a subordinação das mulheres é universal.
Bem interessante. Realmente esta dissertação de mestrado da Professora Maria Anice promete demais. Pelo que já estou rapidamente lendo de seu referencial teórico, é possível já compreender o que está por vir.
4 – Neusa Santos Souza. Autora de peso, já falecida, escreveu sua primeira obra em 1983. Psiquiatra e psicanalista, dedicou estudo acadêmico para compreender a vida emocional dos negros e negas. A partir do seu olhar no mundo, numa sociedade eminentemente branca, a partir desta hegemonia, Neusa Santos, vai fixando seu olhar nestas diferenças. Ela perpassa por questões brutais que estão incrustadas socialmente, como a questão do racismo.
5 – Cida Bento. Uma obra fantástica “O Pacto da Branquitude”. Simplesmente ela consegue identificar a falácia da meritocracia e o que está por detrás das contratações em corporações. Ela encontrou um discurso de preservação deste status quo, hegemônico, onde quem eram as pessoas contratadas para estas vagas.
Esta obra também já havia sido apresentada para mim pela colega Rosivania Mendes que pesquisa este tema.
e
6 – Antônio Bispo dos Santos. Já falecido, eu já havia conhecido este autor na Pós-Graduação de Direitos Humanos na UFPA, pela professora Eliane Moreira. Realmente uma obra prima que merece ser lida com muita calma e muito cuidado.
O conceito marcante da obra do autor, mestre Quilombola, é a contracolonização. Em seu livro, “A terra dá, a terra que”, o mestre apresenta um manancial impecável para compreendermos o que realmente precisa ser nutrido.
Achei fantástica a crítica que ele faz ao desenvolvimento. Para o desenvolvimento, afirma o autor, precisamos falar em envolvimento. Propõe a luta a partir da RE – conceituação do maior instrumento da dominação: a fala.
Realmente, já estou ansioso para ler a dissertação da Professora Maria Anice valendo-se de todos estes autores, confrontando analiticamente com a obra da Dalcídio Jurandir. Não esqueça de nos avisar.
Um grande abraço e boa sorte.
Professor Hugo Picanço